terça-feira, 20 de maio de 2014

ENTREVISTA DOS ALUNOS DO CIEP 121- PROF. JOADÉLIO CODEÇO - MARAMBAIA A ESCRITORA GALEGA ADELA FIGUEROA PANISSE






Foto: ADELA FIGUEROA PANISSE-GALIZA


I-                   ENTREVISTA A ESCRITORA ADELA FIGUEROA “CURRA” (GALIZA) AOS ALUNOS DO CIEP 121- PROFESSOR JOADÉLIO CODEÇO- MARAMBAIA-SÃO GONÇALO-RJ

1-DIANA M. DE AQUINO (TURMA: 901/2014): a)  O que levou você a ser poeta?

R:Comecei a escrever poesia pela necessidade de comunicar as minhas emoções. Sendo estas fortes e ,na altura, sentir eu a necessidade d’as partilhar com a gente. Mas sempre cri que eu não era capaz de fazer uma poesia até que saiu de mim a primeira: Desabrochou a primavera no livro Vento de Amor ao Mar.

Desabrochou a primavera
No seu dia,
Pontual
Mas a semana quebrou
E o tempo partiu
Em dous:
A lua guia as bombas
E a luz ilumina
A noite de Bagdag.
A noite
O escuro.
No nome de Deus uns matam
Outros morrem
Pelo estoupar de bombas intelixentes.
Quem devolverá o riso aos nenos?
Quem lhes devolverá o tempo
E a vida,
A Shafiya,a Ahmed
Que brincavam no pátio?
A John, A Charlie’,seu avião caiu.

2- ARIANE B. MOTA DA SILVA (TURMA 901): a) Como você começou a fazer poesia?

R: Foi o grande impacto que me produziu a Guerra do Iraque que eu sentia desnecessária e cruel. Também eu estava muito afetada pelo desastre do Prestige, barco cheio de fuel que deitou tudo o seu lixo poluente diante da Galiza. As nossas costas ficaram negras e fomos muitos voluntarias/os para limpar as praias e , ainda denunciar o  Governo da Espanha e da Galiza por tentar ocultar o que nos víamos como os nossos olhos: praias e rochedos cheios de fuel(chapapote) e o governo a dizer que tudo estava “esplendoroso” para não fazer nada e ocultar a sua má gestão do acidente. Essas lutas partilhadas com as companheiras e colegas ecologistas e outros fizeram levantar em mim a sensibilidade e a necessidade de comunicar os meus sentimentos.Destes fatos nasceu Vento de Amor ao Mar o meu primeiro livro publicado de poesias. Logo nasceu também a necessidade de comunicar o meu interesse pela problemática da mulher, nomeadamente aquela que faz referência ao mau trato e ao desamor. Foi A Xanela Aberta.

3- JÉSSIKA LIANDRO DE SOUZA MELO (TURMA 901):
a)Sua vida sem poesia, como seria?

R:Eu descobri a minha capacidade de fazer poesia muito tarde. Antes nem imaginava que eu  pudesse fazer um só verso. O fato de arriscar e romper a barragem emocional que me impedia essa forma de expressão fiz-me muito bem. Agora faço poesia por qualquer coisa: as cerdeiras em flor nesta primavera tardia mas bem florida, as prostitutas que “trabalham” perto de onde eu moro, o passar do tempo, a raiva que me invade por ver tanta injustiça, o mar que me embalou de meninha e me fascina sempre, as montanhas e os rios da minha Terra que é formosíssima e muito variada, etc. Só espero poder melhorar a minha escrita e poder comunicar melhor as minhas emoções, os meus sentimentos.

b) Quais poesias marcaram sua vida?  Por quê?

R: As de Rosália de Castro, indubitavelmente.Toda ela. Também Curros Enrriquez poeta muito musicado em galego, social e rebelde, ainda Pessoa tem coisas geniais:

 Da minha aldeia veio quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...
 .

Poetas atuais, galegas há muito, Hoje há muita poesia em Galego e bastante boa.Como  Marica Campo que gosto imenso.Ou Iolanda Aldrei, Maria do Vigo, etc.
Mas eu gosto especialmente da poesia que pode ser musicada. Aquela que leva a música dentro do poema. E, ainda, aquela que me diz algo.Nomeadamente aquela que tem valor social. Todavia também gosto da intimista. Participo em varias revistas de poesia na Galiza, como Xistral,

4- LAYLA MATTOS DE OLIVEIRA (TURMA 901):
a)      Por que escolheu a profissão que tem?

R: Eu são Bióloga. E Fui Professora por mais de 35 anos. Fiz o meu mestrado em Educação Ambiental, e também o meu grado em Genética do Girassol( Helianthus Annus) e o meu doutoramento em Origem da Vida e Evolução Cósmica.
 Amo a vida. Gosto imenso da poesia do vivo. Costumo a dizer que a vida é esse algo contagioso que tem a capacidade de se estender por toda parte e vencer todos os “atrancos”( dificuldades e retos)  em que o ambiente a coloca. A vida é mesmo poesia. E o Universo canta com a sua música particular das estrelas até o vibrar  das moléculas. Nós, apenas temos que nos deixar mexer no seu ritmo.

b)      As pessoas te julgam por ser poeta?

R:Não me sinto julgada. Somente eu quisera saber fazer melhor a minha poesia para chegar ao coração das pessoas e abrir um canal de comunicação no campo dos afetos e dos sentimentos. Isso é o que eu considero importante: O mundo dos sentimentos. Os seres humanos são biologia sensível e afetiva. O que move a toda a gente são as paixões: O amor, o ódio, a inveja, a simpatia o medo, o prazer da estética, a criatividade...

5- LISLANE DOS SANTOS ALVES VIEIRA (TURMA 901):
a)      Sobre o que gostaria de escrever como algo novo?

R:Nada há de novo sobre a Terra e sobre o ser humano. Já os gregos interpretaram as paixões e as dores da humanidade como ninguém voltou fazer. Numa cova do sul da França já apareceu uma flauta de mais de 40.000 anos junto pinturas nas paredes. O ser humano sempre teve a necessidade de fazer arte para abrir caminhos de expressão para o mundo do espírito. Mas na minha estadia no Brasil, descobri o mundo riquíssimo da mestiçagem que a biologia , de sempre, tem valorado como muito positivo, e que eu acho culturalmente muito criativo e enriquecedor. Creio que na América do sul há um forte potencial criativo.Isso poderia ser algo novo para mim que venho duma terra muito homogênea racial e culturalmente falando.

6- MAICON DOUGLAS C. DE MELO (TURMA 901):
a)      Quantos livros você já fez?

R:De criação literária apenas 6.( Um fica a espera de ser editado) Mas tenho escrito livros de texto para estudantes e muitos artigos acerca da problemática do ensino, em geral e do ensino das ciências, em particular.
b)      b) E qual de seus livros você mais gosta?  Por que?

R: Todos os livros são um pouco como filhos. Embora há uns com que a escritora sente mais identificação. Um que está para ser publicado : Atlântida, Mulher d’água, gosto mesmo. São relatos mais ou menos curtos misturados com poesias que referem estórias de mulheres que cruzaram o oceano Atlântico por uma ou outra ração . Também alguma poesia é sentida como mais intima e achegada.

7- MAXSUEL HENRIQUE NERI DA SILVA (TURMA 901):
a) O que te inspira a fazer poesia?

R:Tudo me inspira: As injustiças, a beleza espantosa do mundo, o florir das árvores na primavera, o rir dos meninhos particularmente do meu netinho, uma estória dramática, a morte,  de meus pais, por exemplo, o amor ,a dor das pessoas mal tratadas pela sociedade ou a vida,etc. O mau trato ao ambiente e o drama da vida,em geral.

c)      Para você o que é poesia?
R:    É um canal de comunicação entre seres humanos. É uma necessidade que nasce no ninho dos sentimentos. É a necessidade de partilhar com os outros/as as nossas sensações os nossos problemas ou os problemas de outrem. É uma paixão que precisa de se libertar para que outro ser humano possa a apanhar e partilhar. É amor em geral: a humanidade, a alguém, a Terra, ao amor e a genreira...


8- DAVISON DOS SANTOS (TURMA 901):
 a) Como você se sente quando termina de escrever uma poesia

R: Por dizer a verdade sinto-me muito a vontade. Logo tenho de voltar lá para rever, para recolocar as palavras, ou apagar aquilo que não gosto. E, ainda, sinto a necessidade de lha contar a alguém, mas nem sempre encontro a quem. Por isso creio que os recitais poéticos têm tanto sucesso. Porque as/os poetas gostam tanto desses encontros em que lêem as suas poesias e escutam as de outros/as.

b) Você já escreveu uma poesia sobre a sua família?

R:Escrevi varias: A meu pai, quando ele morreu e a minha mãe. Também uma dedicada aos meus filhos. Escrevi um livro de contos para crianças dedicado ao meu netinho que contém muitas poesias. Estas foram musicadas pelo outro avo que sabe música e conseguimos fazer um CD com as canções do livro: O Rei da Floresta

c) Você já tentou fazer um filme com a sua poesia?

R:Não sou eu tão importante. Mas, com modéstia, sim que gostaria. O que acontece é que não tenho conhecimentos de filmografia.Nem ninguém se interessou,ainda pelos meus escritos.

9- MATHEUS LOBO GOMES LEITE (TURMA 901):
a)      Qual foi um dos seus primeiros poemas que a senhora ficou mais emocionada?

R: Cuido que Faluya, Também Aos meus filhos:

Gardai meus fillos
 todo o que recibisteis.
Nom com fecho
Nom no escuro.
Desabrochai, abride
Para ver a luz do sol
Que sempre escoa
 por entre as nuvens.....
(Em Vento de Amor ao Mar)

10) THAMIRES SOARES DE SOUZA(TURMA 901):
 a) O que procura expressar quando escreve esses seus livros?

R:Os meus sentimentos e também sensibilizar para os problemas que vejo que afetam ao mundo. Nomeadamente a aqueles menos favorecidos. Também chamar a atenção para a beleza do Mundo.

e)      Pensa em viver algo novo?

R: sempre penso n’ algo novo. Estou prestes a ser surpreendida permanentemente pela vida e as pessoas.

11) JULIO CESAR DA ROCHA PACHECO (TURMA 901):
a) Você era sempre determinada a conseguir o que queria?

R: sempre lutei pelos meus ideais. : O meu idioma o Galego , ainda desprezado, um ensino democrático, participativo e criativo, a divulgação cientifica, a ecologia e o cuidado do ambiente, os direitos humanos, etc

b)      Alguém já zombou de você pelos seus sonhos de Escritora?

R:Pode que na minha casa. Os meus filhos troçam algo com a minha “ambição”para ser uma escritora o melhor possível. Também durante a minha etapa de casada e de criar os filhos senti-me constringida e limitada. Creio que não ousava manifestar a minha necessidade de escrever. Sem que ninguém tiver culpa deste sentimento. Logo foi desabrochar e agora não quero que aquela janela que foi aberta fique mais nunca fechada.

12- JHONNATA HENRIQUE (TURMA 901):
a)      Qual é o seu modo de mostrar o seu poema para o mundo?

R: Gostaria de saber declamar, cantar e musicar os meus poemas. Mas nem sempre uma pode fazer o que quere. Eu gosto muito de cantar, mas não sei fazer música e isso me falta.Também admiro a obra gráfica. Eu trabalho sempre com uma minha amiga pintora e grande artista: Celsa Sánchez Vázquez que ilustra o que eu escrevo. As vezes eu escrevo para as suas pinturas. Trabalhamos numa espécie de simbiose artística..
Gosto das manifestações de arte integrada: Música, poesia, pintura.
Na Eira da Xoana( uma casinha que a minha Associação Ecologista, tem no campo) fizemos uma dança ritual de amor á Terra: chamada Aturujo á Terra-Grito pela Terra. E diz assim:
          Dança ritual para a Terra no dia da Feira Literária na Eira da Xoana(22 de março):
           
          ATURUJO PELA TERRA
           
          O nego se revolta
          Quere revoltá
          O nego se revolta
          Ah! Ah!
           
          O indio se revolta
           quere revoltá
          O Indio se revolta
           Ah! Ah!
           
          Mestiço se volta
          Quere revoltá
          Mestiço se revolta
           Ah!Ah!
           
          Galega se revolta
          Quere revoltá
          Galega se revolta
           Ah! Ah!
           
          O Povo revoltado
          Sempre vai ganhar
          O povo revoltado
           Ah! Ah!
           
          O Povo revoltado
          Ga-nha-ra!

13- LIVIA SÁ LIMA (TURMA 901):
a)      Como você descobriu esse dom de escritor(a)?

R:sempre tive essa inquietude. .Mas o que eu não sabia é que tinha força para me exprimir literariamente. Foi só quando encontrei dentro de mim a segurança e a força que deixei sair o que levava no meu interior. E saiu o primeiro dos meus livros: Vento de amor ao mar. Logo julguei que já não mais queria fechar aquela porta e fez A Xanela Aberta, dedicada sobre todo ás mulheres. Começa assim:
Abre a xanela Maria
Deixa entrar a luz do dia...
..................
14- NATHAN DA SILVA DOS SANTOS (TURMA 901):
a)      Qual livro mexeu mais com o seu coração?

R: As obras completas de Rosália de Castro e os seus cantares galegos.
Das minhas obras, Madeira de Mulher. Contos em que pretendo tratar da problemática da mulher e da sociedade em geral

b)      Qual dos seus livros demorou mais para se fazer?

R: Madeira de Mulher. Também ando com um romance que leva vários anos a espera de eu tomar conta dele a sério. Tenho um livro de contos acabado que busca Editora.

15- IRANILSON L. G. LEITE ( TURMA 901):
a)      Qual foi a sua reação quando no início da carreira seus poemas começaram a ser reconhecido?
b)      R: Nem tenho a certeza de serem meus poemas reconhecidos. Tenho muitas amigas entre as poetas que gabam a minha obra, mas eu vejo outras poetas bem melhores do que eu. Se assim for eu ficaria surpreendida.

c)      E como foi a publicação do primeiro livro?  Teve algum problema na publicação?

R:Na altura um mecenas da Galiza que apreciava muito tudo aquilo feito para a nossa Terra, e tinha a Editorial do Castro( uma das mais prestigiadas) ajudou-me:
Mostrei os poemas, gostou e publicou. Era uma pessoa extraordinária Issaac Diaz Pardo que tudo deu para Galiza. Infelizmente ele já morreu e Galiza perdeu um dos seus filhos melhores.

16- GABRIEL DA SILVA (TURMA 901):
a)      Qual das sua obras, a senhora acha que impactou a sua vida?
R: A última que ainda não foi publicada: Mulherd’água.
Começa com um poema a minha mãe( que era uma grande desportista e nadadora) que reproduzo:
Para Adela Panisse, Minha mãe.

Entre as pingas da salgada
Água do mar, flutuas
Etérea ,leve, consistente,
Em quanto
As ondas do Orçam tenazmente cruzas.
Ouh Mãe!,
Trouxeste o mar á montanha
Entre as voltas dos teus riços
Dourados.Mãe atlântica,
Mãe d’água,
Ictia faemina,
Mulher peixe.
Baleia branca inalcançável
Bondosa e esquiva
A contar estórias de mar.
Contos novos
Transcendentes, divertidos,diluídos
No Atlântico , líquido oceano
Das tuas rias.

Antes de ir navegar
Era teu corpo dinâmico,
Rotundo e formoso
Um peirão em que abeirar.

Ancoradouro seguro
protetor
Salvador dos náufragos, teus filhos.
Eternamente perdidos
entre complicadas subtilezas
Que agora tu já
 lhes não vais podes ajudar
a simplificar com a tua lógica “aplastante”
sempre a olhar para adiante .

(Quem não arrisca não cruza a mar)

Mulher d’água,  salva-vidas
Em que nós nunca iríamos naufragar.

Orfos de ti por cá ficamos
Contigo sempre a nadar
Na barca em vela
Do teu colo protetor
Feito de escuma e de sal.

Ficarás em Riaçor ,
Deitada ao sol
Qual  Walkiria oceânica

17-TAUANE EMÍLIA DE SOUZA JACÓ(TURMA 901):
a)      Qual é o seu poeta preferido?

R:Já disse , Rosália de Castro. É imensa nunca termina.Gosto também das cantigas dos cancioneiros medievais, que na Galiza sempre estão a ser recriadas e atualizadas á modernidade.

18- AMANDA DA SILVA FARIA (TURMA 901):
a)      Como  você  vê a Literatura no seu país?  Por quê?
R:Na Galiza a literatura está num momento de grande viçosidade, criatividade.Mesmo, eu diria explosiva. Há poetas por todo lado. E, ainda bons,e boas. Mas, neste momento de grande crise econômica, o que não há é mecenas para publicar. Começa a se estender a prática da auto-publicação, que acho muito boa.

21- RHUAN NEVES DA SILVA (TURMA 902):
a)      Você gosta do lugar que escolheu para morar? Ele já lhe inspirou um poema?
R: A Galiza é a minha Terra. É muito formosa, variada e rica em produtos de todo tipo. Mas é uma sociedade muito complicada e difícil de se adaptar a ela.
Pode ser muito amável de principio, mas é dura para o convívio mais demorado. Mas é a minha Terra e do que eu gosto. A minha língua, o galego é uma língua linda e cheia de matizes e as nossas paisagens são diversas e muito lindas. Embora, para os tamanhos do Brasil resultem pequenas. Tudo é pequeno no meu País.Ainda os pôr-do-sol são magníficos.

b)      Qual é o nome do seu primeiro livro?  E sobre o que trata?

R:O meu primeiro livro foi Vento de Amor ao Mar. É de poesia e foi inspirado como revolta contra a poluição dos nossos mares e também pela guerra de Iraque que achei injusta, violenta e desnecessária.

22- STEFANIE FERNANDES GUEDES (TURMA 901):
a)      Como você se sente em ser escritora?  Em coordenar edição de livros?  Ser poeta e escrever livro é muito difícil?
R:      Tudo isso faz-me sentir bem. Sinto que estou a dar a luz algo vivo que vai ter existência própria depois de que eu o deixe voar e sair do prelo.

c)      O que você pensa sobre a questão de gênero, isto é, a violência contra a mulher?

R: Trato isso em quase todos os meus livros. Acho que é um problema de poder. Um grupo sobre outro. Um grupo de seres humanos( mulheres, meninos, escravos) deixam-se dominar por outro grupo( homens, patrão, etc) porque nem imaginam a possibilidade de serem livres e dignos de terem um vida própria. E, doutro lado , os dominantes acham que é “normal” exercerem essa dominação que lhes é dada por “direito”., por tradição.
A dignidade da mulher como ser humano não e diferente da dignidade do escravo/as, ou do operário abusado pelo patrão. Mas leva tempo a interiorizar este sentimento e exercer de pessoa livre.
23- THAIS DA SILVA (TURMA 901):
a)      Com quantos anos você escreveu o seu primeiro livro ou poema?

R:Com 54

25- WALLACE  LUCAS DE S. FIGUEIREDO (TURMA 901):
a)      Já teve alguém que você amou muito e quis escrever sobre ele?

R:Sim. E não era meu namorado. Apenas um grande amigo que perdi.
Vai a poesia que fez para ele:

QUEN FOSE VELA! Do livro A xanela aberta. Musicado por Fernando Gómez Jacome.




Se eu fose vela
E o vento a soprar
Levaria a tua alma a voar.

Voaríamos juntos
Por cima dos rios,
 dos prados, dos vales,
e o vento a soprar.

Alem dos muinhos
que eriçam os montes
 retando ao mar.
Aih ! se ti fosses vela
E o vento a soprar
Sentiríamos xuntos
A forza do vento
 Nas ventoinhas zoar.
Imaxina se foses velinha viaxeira
E te deixases levar,
A tua mau na minha
Ou abrazado ao meu van:
Cantas maravilhas poderíamos xuntos olhar!
Sempre que o vento
 estivese a soprar...

Se eu fose vela
E o teu alento a soprar
Iríamos xuntos voar.
Sopra vento sopra:
Traz o meu amor
E axúda-mo a arrolar
Que em canto ti sopres
Eu ei de cantar



26- MATHEUS FONSECA (TURMA 607-CMIBO):
a)      Gostei muito do seu conto “Quilmas”,  e “Esquecimento”, ambos, em MADEIRA DE MULHER, eles são muito bons, e fizeram a aula ficar muito boa: a minha pergunta é, o que você pensa sobre o Feminicídio?

R:  Feminicidio, suponho eu que quer dizer eliminar as mulheres. Mas estas nem podem ser banidas, assim quanto os homens. Quilmas representa um povo que fez uma luta heróica contra uma fábrica de piscicultura que queria se instalar lá. Deixaria o povinho afogado entre os plásticos negros que recobrem as piscinas dos peixes e a estrada. Desde Quilmas vê-se o cabo de Fisterra( o Fim da Terra). É um lugar formoso e único.
Acabar com esse pequeno povo , débil e indefesso é como lutar David contra Goliat. Também a luta das mulheres por serem alguém , pessoas dignas, companheiras dos homens tem muito de heróico, e de revolta contra poderes já estabelecidos tradicionais:
sempre foi assim, e compre agüentar”
Qilmas revoltou-se e conseguiu parar a piscicultura que ocuparia as suas Terras. Os mais débeis têm de lutar pelo seu lugar no mundo.Nesta poesia feita no estilo das antigas cantigas, creio que digo o que penso acerca do amor possesivo que pode matar:
MATEI-A POR QUE ERA MINHA
                                                                                          (Adela Figueroa Panisse)
Matei-a por que era minha
Mais ela não o sabia
Minha amiga.

Ao rio das águas bravas
Fui por ver a belida
Meninha, mais ela não vinha
Minha amiga.

E eu em pânico crescia
Ao pé da fonte belida.
Cuidava eu do ela estava
E,se viria,
Minha amiga.

Ao pé da fonte lavada.
E eu não a via.
Coitado eu esperava e pensava
Em mia amiga.

Que com outro ela estava
E folgavam,
E eu com medo temia,
Que de mim se burlavam
Em quanto me traiçoavam.

Ainda, ela o amava.

E ciúmes fortes eu tinha
E grandes tormentos queimavam
Minha entranha.
E eu em raiva penava
E cuidava
Que a meninha formosa era minha
Mais noutros braços estava
Todavia.

Com outro amor a belida
Gozava
E falava
E era grande alegria
Que ambos os dois  traziam.

E eu de genreira,
Cego dos olhos ia.
Na  i-alma raiva viva..
________

Pela  beirinha do rio
A minha amiga cantava
E onda mim caminhava
Em alegria.

E a belida não cuidava
A raiva que, duramente,
No meu coração doente
Eu alimentara.

E minha amiga cantava,
Em quanto,
 flores de cores cortava
e as deitava,
Na fonte belida.

E minha faca afiada
Vermelhas flores fazia
No verde leito de ervas
Em que a minha amiga,
Inocente para sempre,
Já dormia.
Pois eu cuidava que ela era minha.

b)      O que você pensa sobre os  escritores brasileiros?  Por quê?

R: Conheço algo. Jorge Amado, gostei imenso, Clarice Lispector, fiquei chocada com o seu. A paixão segundo GH. Pareceu-me uma obra completa, interessantíssima, Guimarães Rosa de fortes laços com a Galiza, ou Nélida Piñon que é Galega de nascimento e agora vai ser reconhecida pela Academia Galega como membro de honra. Também Cecília Meireles, que conheci agora pelo encontro de escritoras e adorei os seus versos. Em geral o Brasil, sendo um país tão grande e diverso, está a produzir uma literatura também diversa e numerosas.  Brasil é um País em efervescência com um grande potencial quer econômico quer demográfico e isso vai dar uma grande produção literária igual que de outras muitas cousas. Eu admiro a potencia do Brasil, a sua mestiçagem de raças e culturas. Isso é muito enriquecedor.
c)      O que representa para a senhora este seu livro “ MADEIRA DE MULHER”?
Creio que é algo autobiográfico. Nem tudo ele, mas sim uma grande parte. Também representa muito do meu pensamento acerca do mundo, nomeadamente do mundo das mulheres.

27)  VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES (Professora de Língua Portuguesa e Produção Textual): Querida escritora Adela Figueroa, desde já, em nome de todo o CIEP BRIZOLÃO 121- PROFESSOR JOADÉLIO CODEÇO-MARAMBAIA-SÃO GONÇALO, o nosso agradecimento: muitíssimo OBRIGADA!

a) A pergunta é:Qual a importância da Mulher Escritora nesse Século XXI?  Por quê?

R: Acho que as mulheres estão mais e mais ocupando seu lugar no “eido” da literatura, e , ainda, da criatividade em geral. Na Galiza há muitas escritoras de idades menor de 40 anos o que indica que a mulher vai conquistando pouco e pouco campos que antes lhe eram mais ou menos vedados. Aparecem muitas poetas ou romancistas que fazem este labor com muita naturalidade. Coisa que não era tão freqüente. Nós temos, na Galiza , o exemplo de Rosália de Castro, grande vulto da nossa literatura. Quer pela sua grande qualidade quer pela fortaleça de seu caráter e a excepcionalidade de ser uma mulher a escrever, naqueles tempos do século XIX:

“Daquelas que cantam
 as pombas e as flores
Todos dim que têm
 alma de mulher
Mas eu que n’as canto,
 Virge da Paloma
De que a terei?
Curros Enriquez dedicara-lhe um poema muito conhecido na Galiza:
Do mar pela ourela
Mireina pasar
Na fronte uma estrela
No bico um cantar
E vinna tan soia
Na noite sem fin
Que ainda chorei
Póla probe da tola
Eu que non tenho
Quen rece por mim......
.........................
Ai dos que levan na fronte unha estrela
Ai dos que levan no bico um cantar!

As mulheres conhecemos , mais do que ninguém, os nossos problemas e a sua projeção cósmica. As mulheres temos mais facilidade para conseguir uma visão global do mundo embora nem temos porque ser poetas das pombas e as flores , mas de toda a problemática da humanidade. Eu sofri muito de pensar como se iriam sentir as mulheres na guerra a ver os seus filhos massacrados e desprotegidos, mas sofri mesmo também de ver a minha Terra massacrada pelo egoísmo dos capitalistas que arrombam com todo sem nenhuma sensibilidade( árvores cortados, rios sujos, prédios a serrem levantados para especular sem ter em conta o ambiente que se destrói nem a necessidade de habitação dos pobres). Também quero escrever acerca da prostituição e da trata de mulheres, ou do mau trato dos fortes sobre os mais débeis, e disso sabemos as mulheres.
No século XXI há mais mulheres a falarmos de mulheres, embora também saibamos falar de homens, de crianças ou de problemas sociais. E hoje isto é feito com muita mais naturalidade do que era antes, no tempo em que eu era mais nova. Há toda uma geração de mulheres criadoras, artistas que estão dando uma visão moderna do mundo através da sua literatura. Não somos vistas já somente pela lente masculina, mas póla feminina também. O que mostra um universo social muito mais rico e variado. Mais real, portanto. Por isso considero importantíssimo o papel da mulher na literatura como, aliás, em qualquer um dos outros campos da atividade humana.Porque a literatura é o testemunho de seu tempo. E isto é já imparável.
Muitíssimo obrigada a todas/os os estudantes do CIEP Brizolão e , ainda a professora Vanda Salles que me deu esta oportunidade de conectar com estudantes brasileiras/os .Tambem forte saúdo e obrigada ao professor Joadélio Codeço que facilitou este trabalho. Espero que esta entrevista não resulte longa de mais e que seja o inicio dum caminho de comunicação entre as duas beiras do Oceano Atlântico.A janela fica aberta, Não a vamos fechar.
Acabo com uns versos de Rosália:
Se o mar tivesse varandas
Fora-te ver ao Brasil
Mas o mar não tem varandas
Meu amor, por onde hei d’ir
__________________________
Fico muito grata de vocês,
Adela Figueroa Panisse( Curra)-LUGO-GALIZA


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

TEORIA DA FÍSICA DO DELICADO PERFUME DAS VIOLETAS- EN CIEN POEMAS A NICANOR PARRA-96-14







TEORIA DA FÍSICA DO DELICADO PERFUME DAS VIOLETAS

                                Por:      Vanda Lúcia da Costa Salles – Brasil

            I
                         
Semente brota, aprendamos
Como escolher e colher, disse-nos o poeta universal
Em sua cosmogonia:
“ Hoje é um dia azul de primavera, creio
que morrerei de poesia.” – Esmero e aprimoro
a  versão e a consciência para transfigurar-se diálogo,
no dente em que mastigo o ato, fixo
a imortalidade quântica poética
no criar a pauta-argonauta
com que risco na pele da escrita
a senda e a senha com que a forma tece
a impensável forma da física desse
ridículo poema a que denominamos amar o amor em processo, mesmo
em pulos e sobressaltos, no agito dos ramos...Nessa úmida folha
em que traço a imensurável
Teoria da Física do Delicado Perfume das Violetas, que
dedico a ti,
Ó amado poeta, Nicanor Parra!
              II

Das margens, observo
Sua aparência, seus mistérios...
Nesse azul de primavera, creio
Do quanto em ti, a nau estética
Da antipoética define a luz primorosa
Dessa imensa Lua
A inebriar os corações, até
O côncavo/convexo do dia, quando
Surge do nada o aroma
Inebriante das violetas, perfeitas e amarelas, todas
Ondas sonoras de uma pauta musical destemida.

               III
E se a primavera agrega
A ideia quântica da descoesão, do abismo
Em arco-íris flui... O Tudo/Nada
Para criativo deleite o gozo cria alegria em todos nós, aprendizes do grito

         IV
Nada é o que parece ser
No enigma das órbitas proibidas
Um homem caminha e assobia Chopin, inebria-se mirando
A cópia de si mesmo, o chapéu irônico de poeta louco
Ou a pretensão de um corpo bem localizado no espaço
Mesmo na imprecisão do rumo, no prumo que assume o lume,
Independente da distância em que esteja
E na probabilidade de ali estar
O mesmo rouxinol, a cigarrilha, o canto e as palavras que encantam
Ah!  Esse princípio da incerteza de ter e ser,  quem crê
No azul da primavera do pôr-do-sol em bel-menor... Os sonhos de Deus!,
( quando o raio incide sobre o alvo e pára), e
Na partícula clara e suave... Na clave de dó, Ah, Nicanor Parra! 
Quantas poesias nos olhos teus?!



 A PROFESSORA, PESQUISADORA E POETA VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES ( VANDA SALLES) PARTICIPA DE:




quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

POETA ASSENÇÃO PESSOA E " MIL POEMAS PARA ITAPECURU MIRIM --







A POETA ASSENÇÃO PESSOA, NO AUDITÓRIO DO INSTITUTO HISTÓRICO DO MARANHÃO, EM  ' MIL POEMAS PARA GONÇALVES DIAS'.



CENTRO DE ENSINO ITAPECURU MIRIM - 21490201
PROJETO MIL POEMAS PARA A CIDADE DE ITAPECURU-MIRIM
MARANHÃO - BRASIL
CARTA DE CONVITE E ADESÃO

Presado Sr.(a)

Estamos realizando um trabalho com todos os Poetas, artistas, professores e historiadores anônimos e consagrados, toda a classe estudantil de Itapecuru-Mirim, demais cidades do Maranhão, podendo se estender para outros Estados brasileiros, quiçá outros países.
Este projeto foi pensado por mim para fazermos algo singular, diferente e audacioso no que diz respeito ao aniversário da nossa Itapecuru-Mirim. A presente obra será publicada sob a forma de coletânea de textos poéticos, fornecidos voluntariamente por seus autores, com as devidas revisões de forma e conteúdo. Estas colaborações são de exclusiva responsabilidade dos autores sem compensação financeira, mas mantendo seus direitos autorais, segundo a legislação em vigor. A obra será lançada na semana do aniversário da cidade com algumas comemorações associadas.

Ao perceber a importância do que foram os trabalhos da Professora Dilercy Adler, da SCLM, em um trabalho conjunto com o Reitor da UFMA, Dr. Natalino Salgado, Sr. Leopoldo Vaz, IHGM, pensei, por bem, trazer uma versão desse tão valioso projeto dos Mil Poemas, para celebrar e homenagear a nossa cidade Itapecuru-Mirim, pela passagem de seus 144 anos em 21 de julho de 2014.
Gostaria de contar com a adesão e colaboração dos Senhores no sentido nos ajudar na edição e publicação do material, uma vez que nossa escola ainda é uma pequenina semente para frutos tão preciosos.
Gostaria de saber como sua Instituição, sua Empresa ou Confraria poderá ser parceira colaborativa e se posso contar com seu apoio e como posso encontra-lo (a) pessoalmente para tratarmos deste magnífico projeto.
É um projeto que foi pensado para ser executado no coletivo, e tenho certeza, com o apoio de todos, desenvolveremos um trabalho de tão valiosa estima para nós e para a história desse município, e creio se olhado com cuidado e aceito, também terão orgulho do resultado esperado.
Conto com todos para atingirmos além dos Mil Poemas, também a publicação dos mesmos.
Desde já lhes agradeço a atenção dispensada.
Saudações “Tapuias”
Assenção Pessoa.
Contato: (98) 8148 3980

    sábado, 1 de fevereiro de 2014

    A LITERATURA BRASILEIRA EM EVIDÊNCIA- PROFESSORA VANDA SALLES NO CENTRO DE LITERATURA DO FORTE DE COPACABANA-ANTOLOGIA EM VERSO E PROSA

    Caros amigos, Autores, Artilheiros da Cultura.
    Informo a vocês que hoje estive em reunião no Forte de Copacabana e agendamos o Lançamento da Antologia 2014 para a semana de 10 à 14 de fevereiro. A data exata ainda dependerá da agenda do evento da Passagem de Comando.
    Preparem-se, na terça feira, dia 04 de fevereiro, enviarei um e-mail confirmando a data exata.
    Com apreço,
    Antonio Pereira - Coordenador do Centro de Literatura do Forte de Copacabana.

    Antologia em Verso e Prosa, 2014.
    Autores do Centro de Literatura
    do Museu Histórico do Exército e Forte de Copacabana
     


    BEM-VINDOS!!!




    Antologia em Verso e Prosa, 2014.

    Autores do Centro de Literatura
    do Museu Histórico do Exército e Forte de Copacabana


    Uma palavra para Vivian

    Vanda Salles ( Vanda Lúcia da Costa Salles)

    A neve cai e seu olhar se perde mais além dos flocos de neve. Atrás
    da janela está uma mulher com olhos de louca e expressão de anjo em
    véspera de Natal. Sem dúvida, acompanha a solidão e envolve seu corpo
    igual fera de mão indomável. Ela que aprendera a suportar a dor maior,
    sentia que a ingratidão rasgava o fundo do seu ser. Aprendeu a viver no
    mundo com a solidez de seus sonhos, e ela é uma pessoa que deseja ser
    uma estrela. Isso é tudo! Uma pessoa excêntrica que busca uma palavra
    nova. Uma palavra que se ajuste a seu corpo sensível.
    Ela aspira viver uma personagem de sonho. Busca um papel. Um
    papel, cujas palavras sejam um caminho para alcançar o estrelato. É um
    sonho de infância que se manteve durante a adolescência e agora na
    maturidade cresce em seu peito como se fora alimento para a alma,
    entretanto sua vida se desmorona igual aos dentes da parte superior de
    sua boca porque seu salário não se ajusta. São tempos difíceis, mas esta
    mulher se aprimora.
    Sabe que viveu cada passo e cada escrita. Anela visitar toda América
    e ruas e ruas das mais secretas. Para crer em seus sonhos pensa que uma
    amiga ou amigo, alguns deles estarão no aeroporto para dar-lhe boas
    vinda. Adquiriu a estranha mania de esperar a aterrissagem dos aviões.
    Mirar fixamente a cara de todo mundo, alguns tristes, outros nem tanto.
    Cansados, ??afetados, amargurados ou felizes. Pensava “o triste é não ter
    a ninguém que nos receba no aeroporto...” Ela um dia iria voar. “Longe,
    com certeza”.
    Eram poucos os que falavam dessas coisas, chegada e partida. Só
    depois de uma viaje cansativa, sem uma mão amiga para convidar-lhes a
    tomar uma xícara de café ou uma de chá. Essa realidade feia aterrorizava.
    Gostava de uma gostosa e farta xícara de café com leite, manteiga e um
    delicioso bolo caseiro de milho, recheado de queijo, quando o dinheiro
    chegava.
    O pai e a mãe: nunca soube. Não havia tempo para sentir-lhes a
    falta. Além de que, nunca aprendera a ler. A ninguém importava dar-lhe
    esses ensinamentos. Diziam que as mulheres que não aprende muito cuidam
    a seu homem com fidelidade e respeito. Assim se casou aos quinze anos.
    Nos primeiros meses ganhou um sopapo que lhe fez ver estrelas. As que
    não brilham. Aprendeu a afogar as lágrimas.
    Quando seu esposo disse “não te faças de rogada” e aceitou as carícias
    do entregador de pizza e exigiu que também se regalasse porque não
    havia nada demais, “hoje em dia é assim, uma mulher deve servir aos
    caprichos de seu marido sem pestanejar”. E que preferiu criar mais porcos
    que cuidar de sua esposa, dera por vencida e fugiu. Definitivamente pensou
    “ não vou voltar a casa. Isso não faria, jamais”. Queria mais estar louca.
    Ninguém imagina o que se vê detrás da janela de sua habitação de
    criada que não possui um espelho, incluindo uma maleta ou um mimo de
    mulher coquete. A moradia é pequena, sem mobílias principais. Mas a
    dignidade é imensa. Sobre uma mesinha dorme um livro, um caderno e
    duas canetas, uma azul e outra de cor negra. São tesouros que guarda
    para assegurar a esperança de escrever a frase mais pura e desejada que
    explicasse a sua alfabetização. Assim, ninguém a impediria de ser a estrela
    mais formosa de sua própria vida.
    Vivian, a mulher por detrás da janela aguarda uma visita, por isso
    queda-se a mirar mais além dos flocos de neve que cai. Os flocos de neve
    caindo, adornavam as calçadas, marquises, árvores, carros, abrigos dos
    transeuntes e seus gorros ao estilo de Van Gogh. É agradável ver, sobretudo
    aos guris lançando bolas de neve uns aos outros e o sorriso de felicidade
    que circula no ar.
    A visita vem para ensinar-lhe as primeiras letras, falar e recitar poesia,pois acredita com esse aumentará a potencialidade de sua personalidade.
    Gostava desses encontros e ausência e presença, já forte em seu interior.
    A primeira vez trouxe pedaços de papel com fragmentos de poesia de
    inúmeros poetas de toda parte do mundo. E escrito com sua bonita
    caligrafia. Então, disse “é para que conheças alguns dos poetas mais
    reconhecidos de todo o mundo hoje em dia” Estas pétalas que vinham do
    coração das pessoas que haviam sofrido, inclusive maravilhosas na utopia,
    como lhe disse acerca da vida e obra do poeta brasileiro chamado Vinicius
    de Moraes. Comentando sobre seus amores e suas dores, suas canções e
    sua contribuição como artista e pessoa, ajudando a impulsionar a vida e
    obra de outros cantores e poetas, não somente em seu país. Também
    aprendeu sobre Lorca, Pessoa, Prevert, Torga, Ibarbourou, entre outros,
    e os amou até entender as batidas de seu coração espantado.
    Conheceu sua professora no aeroporto, tinha muita sensibilidade,
    gestos carinhosos e amáveis. Disse viver da aposentadoria antecipada
    por razões dos anos de chumbo em seu país. Uma ditadura que lhe
    arrebatou a vida de amigos e seus seres mais queridos, inclusive sua filha,
    que nasceu da tortura, a qual abandonou forçada que foi ao exílio. Nas
    mãos de Vivian há um pedaço de papel, o mesmo papel que a mestra lhe
    havia dado para ler em sua chegada ao aeroporto, na primeira vez em que
    se conheceram e ela disse sentir muito porque nunca aprendera a ler. A
    mulher olhou profundamente em seus olhos, na grandeza de sua pele e
    convencida de seu papel, disse-lhe "Serei sua professora e lhe ensinarei a
    ler”. Isso fez. Nesse exato instante das mãos de Vivian assoma um papel
    que diz: Filha amada, sou sua mãe! Por Deus, és vitoriosa!
    A última vez que as vi ternura transbordava.


    ( Páginas 230 a 232, da Antologia em Verso e Prosa, 2014.
    Autores do Centro de Literatura
    do Museu Histórico do Exército e Forte de Copacabana)